segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Andante, com esperança talvez eu já não saiba caminhar. Tenho duvidado tanto!
Carrego no bolso a coragem pra enfrentar os percalços.
Árvore, os ramos que de mim brotaram já podem produzir seus próprios frutos.
As raízes não abandono, mas me permito deixar o vento bater e chacoalhar, e nessa tentativa de não quebrar, posso alguns galhos derrubar e machucar o que me rodeia.
Rastro,  projeto no tempo o signo dos meus sapatos, mas certa de que essa marca deve se apagar, para que a terra aceite novas marcas.
Alma, entrego meus equívocos a quem possa olhá-los com amor, para que dos julgamentos não resulte apenas condenação, mas quem sabe, também, alguma absolvição.
-fls-

segunda-feira, 1 de outubro de 2018







Manteve-se firme,por muito tempo,contra a correnteza.
Quando voltou-se para o fluxo,já era pedra polida.
-fls-















sangrou.e junto ao sangue escorria a vida que guardava.escorria sem choro sem dor sem medo.apenas lamento.teria que lacrar as roupas não usadas os dias não passeados os planos não cumpridos as palavras não ditas os amores não amados os abraços não dados...toda uma vida.
ninguém a viu sangrar.o líquido vital escorreu invisível pelas pernas pelas frestas pelas ruas pelas portas pelos becos pela vida.
agora já era tarde.o fruto vazou escureceu morreu.precisa cobrir de luto e terra o rebento perdido e dar ao tempo tempo para trazer algum conforto.
-fls-
nascida no interior a menina carregava sonhos de interior.
subir em árvores, chupar laranjas no pé, colher melancia fresca, bonecas de milho; preferencialmente as ruivas, porque lhe remetiam a si, e era a si que desejava reverenciar, referenciar; carecia de importância.
só, ousava romper com as normas da casa fugindo em busca de cheiro e suor.
arteira, ousava romper com as normas sociais espiandoo vizinho tomar banho pelas frestas do banheiro "casinha" sem matajuntas.
atrevia-se também a usar vestidos muito curtos, com o propósito apenas de contrariar quem lhe acusava as pernas finas.
mas a rebelde era doce... certa vez questionada na rua se era menino ou menina, devido à sua magreza e aos cabelos arrebatados por um barbeiro sem coração que quase lhe decepa também os delírios ,respondeu apenas: -menina.
carregou a dor na garganta até chegar em casa e lavar os lençóis no tanque árido de cimento bruto.
mais tarde alguém lhe diria que sua única beleza estava na voz, pois então, calou-se.
voltou a falar quando não mais lhe arranhava a IN-delicadeza dos mortais, já que Dionísio, o semideus grego lhe convidara à divindade com um piscar de olhos...
a menina nem cresceu... apenas deixou lá atrás pendurados no varal comprido que se erguia com forquilha de árvore seus passos medrosos, seus espaços vazios, seus traços corados...
não deixou tudo, carregou um tantinho de cada, e assim caminha passos apenas cautelosos, habita espaços sem multidão, e só cora quando a alma chora...
-fls-








Essa dor
Que corta os pulsos
É faca afiada
No medo
Impulsos... 
Arames farpados
Sao as palavras
Não ditas
De adeus
-fls-
  • Sós, no colo da noite
    Vamos adormecer bebê
    A escuridão é tão longa meu anjo
    Dê-me aqui sua mãozinha
    Vamos voltar meu bem,
    Pra ontem, antes de você chegar?
    Vamos ficar protegidos, dentro de mim,das maldades que o medo fará conosco
    Seremos arrastados feito folhas ao vento
    Esse abraço que nos aquece
    Se perderá num rasgo no tempo que está por vir
    Será tão cruel o futuro que nos aguarda
    Não terei mais seu corpo frágil
    Adormecido no meu
    O encanto será morto nos dias que estão por vir
    Dorme bebê, eu amparo seu corpinho
    Dorme e sonha
    Que a manhã chegará trazendo tempestade e frio
    Pra dentro do nosso amor
    -fls-








Uma invasão de saudades antecipadas
mesclando-se aos adeuses já passados,
surfando na superfície dos meus pêlos eriçados
como folhas na superfície de ondas do mar,
encharca as horas que tenho a navegar
com ausências presentes e presenças cultivadas. 
_fls-